Frutal não precisa de lista de boicote
Transformar divergências políticas em listas de boicote contra empresas e pessoas é uma demonstração de intolerância que pouco contribui para a democracia e para a convivência em sociedade. Passadas...
Transformar divergências políticas em listas de boicote contra empresas e pessoas é uma demonstração de intolerância que pouco contribui para a democracia e para a convivência em sociedade.
Passadas as eleições presidenciais, uma prática preocupante voltou a circular pelas redes sociais e, principalmente, pelos grupos de WhatsApp. Em Frutal, assim como em outras cidades, começaram a aparecer listas com nomes de empresas e pessoas supostamente identificadas com o voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Junto delas, uma recomendação: boicotar esses estabelecimentos.
A iniciativa merece uma reflexão. Afinal, em pleno século XXI, depois de tantos avanços sociais, tecnológicos e democráticos, ainda precisamos lidar com tentativas de transformar uma escolha eleitoral em motivo para constrangimento, perseguição ou exclusão econômica?
O voto é um dos instrumentos mais importantes da democracia. É por meio dele que cada cidadão manifesta sua preferência, suas convicções e sua visão sobre os rumos do país. Em uma sociedade livre, essa escolha não precisa ser igual à do vizinho, do colega de trabalho, do comerciante ou do empresário da cidade.
É justamente essa diversidade que torna a democracia possível.
O problema começa quando a divergência deixa de ser um ponto de discussão e passa a ser utilizada como justificativa para atacar quem pensa diferente. Uma lista de supostos eleitores, acompanhada de pedidos de boicote, transforma uma decisão individual e legítima em uma espécie de julgamento público.
E há uma questão ainda mais importante: quem garante que os nomes divulgados estão corretos?
Uma mensagem compartilhada inúmeras vezes pelo WhatsApp não se transforma em verdade apenas porque chegou a muitos celulares. Sem comprovação, essas listas podem conter informações falsas, nomes incluídos indevidamente e acusações que atingem pessoas e negócios sem qualquer possibilidade de defesa imediata.
Mesmo quando a informação é verdadeira, permanece a pergunta: qual é o problema em um cidadão votar em determinado candidato? Desde que respeite a lei e os direitos dos demais, cada eleitor tem liberdade para fazer sua escolha sem precisar apresentar justificativas à sociedade.
O consumidor também tem o direito de escolher onde gastar seu dinheiro. Isso é legítimo. O que merece questionamento é a mobilização organizada para constranger ou prejudicar alguém simplesmente por sua suposta preferência política, especialmente quando baseada em informações de origem duvidosa.
Além de questionável do ponto de vista democrático, esse tipo de movimento tende a ser pouco produtivo. Não melhora a economia local, não resolve os problemas do município, não gera empregos e não contribui para a construção de políticas públicas mais eficientes.
Ao contrário, estimula desconfiança, alimenta ressentimentos e aprofunda divisões que já são grandes o suficiente.
Em uma cidade como Frutal, onde as relações comerciais, profissionais e pessoais frequentemente se cruzam, a consequência desse tipo de comportamento pode ultrapassar os limites da disputa eleitoral. O comerciante que pensa de uma maneira pode atender normalmente um cliente que pensa de outra. O trabalhador não precisa compartilhar a visão política do empregador. E os moradores não precisam transformar cada compra ou relação profissional em uma declaração de alinhamento ideológico.
A convivência em sociedade exige algo básico: reconhecer que o outro tem o mesmo direito de fazer escolhas que nós reivindicamos para nós mesmos.
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